Um dia que nunca existiu
Autor:
Felipe Marton
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Data:

O sol aparecia miúdo naquela manhã fria de inverno. Pelas frestas da janela, era possível vê-lo tentando impor a todas as coisas a regra fundamental de existir sob sua luz.
Mas não a Pedro.
A janela de seu quarto tinha um pequeno defeito. Uma imperfeição na persiana permitia que, tão logo o sol surgisse no horizonte, um fio estreito de luz atravessasse o cômodo e lhe alcançasse o rosto.
Todas as manhãs eram assim.
Talvez por isso Pedro raramente precisasse de despertador. O mundo se encarregava de acordá-lo.
Naquela manhã, abriu os olhos por causa da luz.
Piscou algumas vezes.
Estendeu a mão para o criado-mudo e procurou o relógio.
20h47.
Pedro franziu a testa.
Olhou para a janela.
Era manhã.
Olhou novamente para o relógio.
20h47.
Pegou-o.
Deu-lhe uma sacudida.
Apertou um botão.
Depois outro.
Nada.
O visor permanecia aceso, imóvel, obstinado:
20h47.
Pensou na pilha.
Relógios paravam.
Coisas paravam.
Não havia nada de extraordinário nisso.
O extraordinário talvez fosse o sol de uma manhã de inverno atravessando a janela enquanto aquele pequeno objeto insistia em dizer que a noite anterior ainda não havia terminado.
Pedro deixou o relógio sobre a cama.
Preocupado com o trabalho, levantou-se depressa.
Não sabia que horas eram, mas conhecia suficientemente a luz que entrava em seu apartamento para perceber que já não era cedo. Vestiu o roupão enquanto atravessava o corredor e procurou o relógio pendurado sobre a parede da sala.
Parou.
20h47.
Ficou alguns segundos olhando para ele.
Aproximou-se.
O ponteiro dos segundos não se movia.
Vinte horas e quarenta e sete minutos.
Pedro olhou novamente para o quarto.
Depois para o relógio da sala.
Sorriu.
Foi um sorriso breve, desses que o corpo produz quando ainda prefere acreditar numa coincidência a admitir o medo.
Pegou o celular sobre a mesa.
A tela acendeu.
20h47.
Agora não sorriu.
Desbloqueou o aparelho.
Nada respondeu.
Tentou abrir uma mensagem.
Nada.
Arrastou o dedo pela tela.
Os ícones estavam ali, mas não pareciam levar a lugar algum. Era como se o aparelho conservasse apenas a aparência de estar funcionando.
20h47.
Foi até a cozinha.
O forno marcava a mesma hora.
20h47.
Quatro relógios.
A mesma hora.
O mesmo minuto.
Nenhum segundo.
Pedro ficou imóvel no centro da cozinha.
Então ouviu um carro passar pela rua.
Depois outro.
Uma buzina.
Alguém gritou qualquer coisa na calçada.
Um cachorro latiu.
Pedro correu até a janela.
A cidade estava viva.
Uma mulher caminhava depressa segurando uma criança pela mão. Um ônibus dobrou a esquina. Do outro lado da rua, um homem levantava a porta metálica de uma padaria. Duas pessoas esperavam diante do semáforo. Uma bicicleta atravessou a faixa antes que a luz mudasse.
Pedro observou tudo aquilo como quem procura uma testemunha.
O mundo acontecia.
Voltou os olhos para o relógio da sala.
20h47.
Olhou para a rua.
Um homem correu.
Uma mulher atravessou.
O ônibus desapareceu na esquina.
Uma criança soltou a mão da mãe e voltou alguns passos para apanhar alguma coisa que havia deixado cair.
Tudo passava.
Menos os relógios.
Pedro levou dois dedos ao pulso.
Seu coração batia.
Uma vez.
Outra.
Outra.
Contou até dez.
Depois parou.
Não soube dizer por que aquilo o incomodou tanto.
Talvez porque, pela primeira vez, percebesse que contar batimentos só fazia sentido quando existia alguma coisa entre um e outro.
Um intervalo.
Uma duração.
Tempo.
Foi até a pia e abriu a torneira.
A água caiu.
Molhou as mãos.
Esperou.
Não saberia dizer quanto.
Fechou a torneira.
Permaneceu observando as gotas que escorriam de seus dedos e caíam lentamente sobre a cuba.
Uma delas demorou a se desprender.
Pedro acompanhou seu movimento até desaparecer no ralo.
Aquilo, ao menos, acontecera.
Olhou novamente para o celular.
20h47.
Sentiu um desconforto que ainda não era medo.
O medo necessita de alguma coisa que possa acontecer.
Pedro ainda não sabia se alguma coisa podia.
Voltou para a sala.
A cidade continuava se movendo atrás da janela.
As pessoas tinham pressa.
Algumas corriam.
Outras esperavam.
Todas pareciam estar atrasadas para alguma coisa ou adiantadas para outra.
Todas possuíam um lugar de onde vinham e outro para onde pretendiam ir.
Pedro percebeu então uma diferença que até aquele instante lhe parecera insignificante.
Elas tinham um depois.
Ele não sabia se tinha.
Sentou-se no sofá.
Olhou para o relógio.
20h47.
Pela primeira vez naquela manhã, ocorreu-lhe que talvez os aparelhos não estivessem quebrados.
Talvez também não fosse o tempo que tivesse parado.
A hipótese lhe pareceu absurda.
Ainda assim, levantou-se e voltou à janela.
O sol continuava avançando sobre os prédios.
As sombras mudavam de lugar.
As pessoas desapareciam nas esquinas.
Tudo obedecia.
Tudo envelhecia um pouco.
Tudo morria um pouco.
Tudo caminhava silenciosamente em direção a alguma coisa.
Menos ele.
Pedro encostou a testa no vidro frio.
Foi então que compreendeu o primeiro horror daquela manhã.
Nada o inseria no dia.
Não estava atrasado.
Não estava adiantado.
Não havia perdido a hora.
A hora é que, de algum modo impossível, havia deixado de alcançá-lo.
E, enquanto observava o mundo continuar sem sua presença, uma pergunta pequena e terrível lhe ocorreu: se não havia mais tempo para ele, o que significava continuar existindo?
Seguiu em sua busca sem rumo e, nos pequenos gestos de carinho, de afeto, paixão ou do mais sublime amor sincero, percebia que somente ali, onde o amor reinava, o tempo — ao menos para ele, que até então estava fora da existência que acontecia à sua frente — parecia acontecer.
Pedro continuou andando.
Já não procurava uma explicação.
Procurava vestígios.
Na esquina seguinte, um homem muito velho caminhava de mãos dadas com uma mulher que parecia ainda mais velha do que ele. Andavam devagar. Tão devagar que todos precisavam desviá-los.
Ninguém parecia ter paciência.
O homem tinha.
A cada poucos passos, esperava que ela o alcançasse.
Ela então apertava sua mão.
E seguiam.
Pedro parou para observá-los.
Quanto tempo havia naquele gesto?
Talvez cinquenta anos.
Talvez sessenta.
Talvez apenas aquela manhã.
Não importava.
A mão enrugada do velho continuava procurando a dela como, um dia, talvez a tivesse procurado jovem, hesitante, suada pela primeira vez.
Pedro olhou o celular.
20h47.
O casal continuou andando.
Alguma coisa havia passado.
Seguiu.
Alguns metros adiante, viu um rapaz sentado num banco segurando um pequeno buquê de flores. Olhava o telefone a cada instante. Levantava a cabeça. Tornava a olhar a tela.
Esperava alguém.
Pedro sorriu.
Nunca havia pensado na espera como uma forma de amor.
Esperar era entregar ao outro uma parcela da própria existência sem garantia de recebê-la de volta.
Era oferecer tempo.
Cinco minutos.
Uma hora.
Uma vida.
Olhou outra vez para o telefone.
20h47.
Continuou.
Uma mulher empurrava uma cadeira de rodas. O homem sentado nela parecia não conseguir mover o próprio corpo. Ela se abaixou, ajeitou-lhe o casaco e disse alguma coisa junto ao seu ouvido.
Ele sorriu.
Pedro não escutou o que ela disse.
Não precisava.
Algo acontecera.
Uma frase havia começado.
Uma frase havia terminado.
Entre uma coisa e outra, existira tempo.
E, mais uma vez, havia amor.
Começou então a suspeitar de algo.
Não era o amor que fazia o tempo voltar.
Talvez fosse o contrário.
Talvez, diante do amor, o tempo revelasse aquilo que verdadeiramente era.
Continuou caminhando.
As ruas pareciam diferentes agora.
Não porque houvessem mudado.
Pedro é que começava a enxergá-las.
Havia um pai agachado amarrando o tênis da filha.
Uma mulher dividindo o guarda-chuva com outra.
Um rapaz correndo atrás do ônibus apenas para alcançar uma menina na janela e entregar-lhe algo que ela havia esquecido.
Um cachorro aguardando diante da porta de uma padaria enquanto seu dono comprava pão.
Um homem segurando o braço do amigo ao atravessar a rua.
Uma senhora passando a mão sobre uma fotografia antes de guardá-la novamente dentro da bolsa.
Tudo tão pequeno.
Tudo tão comum.
Tudo tão absurdamente humano.
Pedro percebeu que havia passado a vida procurando o amor nas grandes declarações.
Nas promessas.
Nas alianças.
Nas fotografias cuidadosamente escolhidas.
Nas viagens.
Nos aniversários.
No “para sempre”.
E, no entanto, talvez o amor passasse a maior parte da existência escondido nos segundos que ninguém contava.
Um cadarço amarrado.
Uma espera.
Uma mão estendida.
Um prato servido.
Um casaco ajeitado.
Um “me avise quando chegar”.
Pequenas eternidades às quais os homens, distraídos demais com os relógios, davam o nome de cotidiano.
Parou.
Pequenas eternidades.
A expressão permaneceu dentro dele.
Olhou para o celular.
20h47.
Abriu novamente a conversa com Vitória.
A última mensagem continuava lá.
“Eu te amo para sempre.”
Pedro passou o dedo sobre aquelas palavras.
Para sempre.
Horas antes, elas lhe haviam parecido uma promessa imensa.
Agora pareciam quase ingênuas.
Que homem poderia prometer aquilo?
Ele sequer sabia quanto tempo possuía.
Nenhum homem sabia.
E talvez estivesse justamente aí a grandeza de pronunciá-las.
Amar para sempre nunca poderia significar possuir todos os dias que viriam.
Ninguém possuía o amanhã.
Amar para sempre talvez significasse apenas isto:
entregar inteiramente ao outro o instante que se tem.
E depois outro.
E outro.
Enquanto houver outro.
Sentiu vontade de chorar.
Não chorou.
Ainda não.
Continuou andando.
Já havia perdido a noção de onde estava quando chegou a uma pequena praça.
No centro havia uma estátua antiga.
Um homem de pedra erguia-se sobre um pedestal, solene, condenado a permanecer naquela posição muito depois de todos aqueles que passavam diante dele desaparecerem.
Pedro aproximou-se.
A chuva manchara o mármore.
Havia rachaduras no pedestal.
O nome gravado na base começava a desaparecer.
Passou os dedos sobre as letras quase apagadas.
Aquele homem talvez tivesse sido importante.
Talvez multidões soubessem seu nome.
Talvez discursos tivessem sido feitos quando aquela estátua fora inaugurada.
Talvez alguém tivesse acreditado que erguê-la fosse uma maneira de vencer o tempo.
Pedro sorriu com tristeza.
O tempo venceria.
Sempre vencia.
Levaria o nome.
Levaria o rosto.
Levaria a pedra.
Levaria a praça.
Um dia talvez levasse a própria cidade.
Olhou ao redor.
Em um dos bancos, uma senhora estava sentada sozinha.
Tinha nas mãos uma fotografia.
Pedro aproximou-se sem saber exatamente por quê.
Ela observava a imagem de um homem.
Era antiga.
O papel já amarelava nas bordas.
A senhora passou suavemente o polegar sobre o rosto fotografado.
Depois beijou a fotografia.
Não houve lágrimas.
Somente aquele beijo.
Pedro sentiu alguma coisa estremecer dentro dele.
O homem da fotografia talvez estivesse morto havia anos.
Talvez décadas.
O corpo não estava mais ali.
A voz não estava mais ali.
Talvez suas roupas tivessem sido doadas.
Seu perfume desaparecido.
Talvez ninguém mais se lembrasse exatamente do modo como ele ria.
O tempo fizera seu trabalho.
Devastara os vestígios.
E, no entanto, alguma coisa permanecia naquela mulher.
Pedro olhou para a estátua.
Depois para a fotografia.
Depois para a mulher.
Compreendeu.
O tempo podia destruir aquilo que os homens construíam para permanecer.
Pedras.
Palácios.
Monumentos.
Retratos.
Nomes.
Tudo sucumbia à sua ferocidade.
Mas havia uma coisa que nem mesmo o tempo conseguia fazer.
“Desacontecer”.
Aquela mulher havia amado aquele homem.
Talvez ele também a tivesse amado.
Isso acontecera.
E nenhuma quantidade de séculos poderia tornar falso aquilo que um dia fora verdadeiro.
Nenhuma ruína.
Nenhum esquecimento.
Nenhuma morte.
O universo poderia apagar todos os vestígios daquela história.
Ainda assim, em algum momento perdido entre duas eternidades, uma pessoa havia olhado para outra e encontrado nela razão suficiente para ficar.
E isso bastava.
Pedro sentou-se.
Por muito tempo — se ainda fosse possível chamar aquilo de tempo — permaneceu olhando as pessoas.
Então compreendeu o erro.
Passara a manhã acreditando que estava condenado porque havia sido retirado do tempo.
Agora percebia que a verdadeira condenação seria permanecer para sempre fora dele.
Porque somente quem vive no tempo pode esperar.
Somente quem vive no tempo pode reencontrar.
Pode sentir saudade.
Pode perdoar depois.
Pode permanecer apesar de.
Pode dizer “ainda”.
Ainda te amo.
Que palavra extraordinária.
Ainda.
Havia passado dentro dela.
Havia presente.
Havia a ameaça do fim.
E, apesar de tudo, havia permanência.
O amor não precisava escapar do tempo para tornar-se eterno.
Precisava atravessá-lo.
Pedro fechou os olhos.
Vitória.
Pensou nela pela primeira vez não como sua noiva, não como a mulher com quem pretendia envelhecer, não como a destinatária daquela promessa absurda de um amor infinito.
Pensou simplesmente em Vitória.
Na maneira como franzia o nariz antes de rir.
Na mania de deixar metade do café na xícara.
No modo como dizia seu nome quando estava brava.
Na noite em que dormira com a cabeça sobre seu peito e ele permanecera imóvel por quase uma hora para não acordá-la.
Uma hora.
Na época parecera muito.
Agora compreendia que talvez tivesse sido uma eternidade.
Porque a eternidade não era aquilo que durava para sempre.
Talvez fosse aquilo que, tendo acontecido verdadeiramente, o próprio tempo se tornava incapaz de negar.
Pedro abriu os olhos.
Estava em sua cama.
Levantou-se de súbito.
A luz atravessava a mesma fresta da janela.
Por alguns segundos, teve medo de olhar.
Depois olhou.
O relógio marcava: 6h48.
Um segundo passou.
6h48 e um.
Outro.
6h48 e dois.
Pedro ficou observando.
Três.
Quatro.
Cinco.
Nunca um segundo lhe parecera tão belo.
Levantou-se.
Foi até a sala.
O relógio da parede avançava.
Na cozinha, o forno marcava 6h49.
Pegou o celular.
Havia mensagens.
Notificações.
Chamadas perdidas.
O mundo inteiro parecia novamente tomado por sua urgência habitual.
Pedro abriu a conversa com Vitória.
Sua última mensagem permanecia ali:
“Eu te amo para sempre.”
Olhou para aquelas palavras por alguns instantes.
Não as apagou.
Agora compreendia o que significavam.
Não eram uma promessa contra o tempo.
Eram uma promessa dentro dele.
Pegou as chaves.
Nem tomou banho.
Nem fez café.
Nem se preocupou com o trabalho.
Saiu.
Queria encontrar Vitória.
Queria vê-la.
Tocá-la.
Escutar sua voz.
Queria desperdiçar com ela todas as horas que pudesse.
Queria vê-la envelhecer.
Queria envelhecer também.
Queria esperar por ela.
Sentir saudade.
Chegar atrasado.
Comemorar aniversários.
Discutir por coisas insignificantes e reconciliar-se depois.
Queria ter medo de perdê-la.
Porque, enfim, compreendia que amar alguém era aceitar, desde o primeiro instante, que o tempo tentaria levá-lo.
E, ainda assim, ficar.
Quando alcançou a calçada, o sol já havia subido um pouco mais.
Pedro ergueu o rosto para ele.
Dessa vez não lhe pareceu feroz.
Apenas inevitável.
Olhou o relógio.
6h53.
Sorriu.
O tempo passava.
Ainda bem.
Começou a caminhar depressa em direção à casa de Vitória.
Tinha pressa.
Não porque estivesse atrasado.
Mas porque, pela primeira vez, compreendera que viver era possuir tão pouco tempo para tudo aquilo que desejávamos tornar eterno.
E em seu peito ardia uma vontade quase infantil de chegar até ela e amá-la.
Naquela manhã.
Na seguinte.
Por todos os dias que lhes fossem concedidos.
Até que o tempo, como fazia com todas as coisas, viesse buscá-los.
Depois disso, não importava.
Porque teriam amado.
E aquilo que verdadeiramente aconteceu nem mesmo a eternidade poderia desfazer.



