LEÃO XIV — O Papa dos millenials.

Autor:

Felipe Marton

|

Data:

Jan 16, 2025

Ilustração de Leão XIV destacando seu pontificado, o legado dos papas anteriores e os desafios da Igreja Católica no século XXI.


A primeira vez que vi o funeral de um papa foi quando São João Paulo II faleceu. Eu era um adolescente de 14 anos, e todo aquele ritual me marcou profundamente. Ver aquele homem — sombra de esperança e prelúdio de santidade — agora em trajes fúnebres, deixou em mim uma impressão que jamais se apagou.

Foi o papa da minha infância. Senti-me órfão.

Mas a sensação durou pouco. Poucas semanas depois, eu estava em casa com minha mãe e, pela televisão, vi ao vivo — pela primeira vez em minha vida — a eleição de um novo papa: Bento XVI.

Para mim, Bento era um homem sério, solene. Aos poucos, aprendi a amá-lo como amava João Paulo. Seu pontificado me ensinou a consumir teologia: eu lia seus livros sobre Jesus Cristo, suas encíclicas e exortações com fascínio. Na minha laicidade ingênua, eu o via como um verdadeiro doutor da Igreja.

Então veio o choque. Bento renunciou à Cátedra de Pedro.

Agora eu já não tinha 14 anos. Estava na faculdade. Acompanhei de perto os últimos dias de Bento, o Grande. Foi um espetáculo histórico ver aquele homem, já frágil, sobrevoando a cidade de Roma enquanto todos os sinos tocavam em uníssono o adeus ao bispo que os guiara.

Jovem, pude acompanhar mais um conclave — com suas incertezas, as discussões sobre escândalos, corrupção e abusos. E então, em 13 de março de 2013, o mundo parou: um homem de sorriso singelo, vestido de branco, surgia no balcão da Basílica de São Pedro.

Francisco.

Ele mudou tudo. Curvou-se diante da humanidade e se tornou o mais humano entre todos. Era o papa da minha juventude.

Durante seu pontificado, marcas de santidade emanavam da espiritualidade de Francisco — o papa dos pobres e do sorriso largo. Foram anos de grande aprendizado. Tive a graça de vê-lo de perto, na Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Brasil.

Mas a idade chega para todos. E o papa da pandemia — aquele que caminhou sozinho pelas escadarias molhadas da Praça de São Pedro para rezar pelo mundo — despediu-se de sua Igreja num domingo de Páscoa. No dia seguinte, adormeceu em seus aposentos.

Agora eu era adulto. As sensações eram diferentes. Um carinho maduro por Francisco me fez quase rejeitar a ideia de outro conclave.

Dessa vez, não pude acompanhar tudo de perto. Estava no trabalho. Nos dias do Conclave, olhava escondido, entre uma aula e outra, as redes sociais para ver se a fumaça da Capela Sistina era branca ou preta. Meu celular, sob a mesa, estava conectado à página do Vaticano.

De repente, uma nuvem de fumaça branca subiu.

Parei tudo o que fazia.

Logo, as portas do balcão da Basílica de São Pedro se abriram, e um cardeal anunciou:

“Habemus Papam!”

Robert Prevost, o reverendíssimo cardeal romano — um americano.

Senti curiosidade mais do que emoção pueril.

Até que vi um homem sereno, de feições tranquilas, profundamente emocionado, tornar-se papa. Usava os trajes solenes, a estola dos santos Pedro e Paulo.

E então veio o nome que me surpreendeu:

Leão.

Na hora me perguntei: por que Leão?

Até que me vieram à mente as aulas de Doutrina Social da Igreja. Leão XIII, o autor da célebre encíclica Rerum Novarum — Das coisas novas.

E, sim, o mundo hoje está repleto de coisas novas — e novíssimas.

Rerum Novissimarum, diríamos em latim.

Um mundo de inteligência artificial, guerras, fome, transformações climáticas.

Deus sabe de tudo.

E mandou para nós, millenials, um papa que pensa nas coisas novas. Um papa da maturidade, da razão e da esperança.

Às vezes penso que a fé também envelhece conosco — não no sentido de enfraquecer, mas de ganhar rugas, memórias e serenidade. Já não preciso que ela me prove nada; quero apenas que me acompanhe em silêncio, como um velho amigo que sabe o que sinto antes que eu diga.

Leão XIV chegou nesse tempo da minha alma. Tempo de ouvir mais do que falar, de entender mais do que julgar. Tempo em que as certezas se tornam menos importantes que a paz de espírito.

Vejo nele um espelho do que desejo ser: alguém que, diante das “coisas novíssimas” do mundo, ainda acredita que o amor é a resposta antiga que nunca envelhece.

Enquanto os algoritmos prometem sentido e as máquinas simulam emoção, ele recorda que há mistérios que só o coração humano é capaz de compreender.

Talvez seja isso que eu chame de maturidade: reconhecer que Deus continua sussurrando — não nas novidades, mas nas entrelinhas delas.

E, quando contemplo Leão XIV, sinto que Ele ainda fala comigo, como falava na infância, na juventude e agora, neste tempo adulto em que a fé deixou de ser um grito e se fez confidência.

O papa da minha maturidade não é apenas o sucessor de Pedro. É o sinal de que o Evangelho continua novo — e, ao mesmo tempo, eterno.

Enquanto houver alguém capaz de acreditar nas “coisas novíssimas”, haverá também esperança.

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