E de novo, o setembro é amarelo.
Autor:
Felipe Marton
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Data:
Jan 16, 2025

Há algum tempo atrás, numa experiência no mínimo estranha de trabalho, uma pessoa a quem tenho em alta estima, dirigiu-se a mim aos berros: “Você é desequilibrado! Não se pode ocupar um cargo como o seu passando essa imagem de desequilíbrio!”. Me recordo de que, ao mesmo tempo em que estava passando muito mal fisicamente pelas trocas de medicamento pelas quais eu estava passando, tive a frieza de simplesmente pegar minhas coisas e dizer que estava indo ao médico, pois os sintomas dessa troca haviam se tornado muito mais graves do que se esperava. Não eram sintomas emocionais, não era uma crise depressiva em si, apenas algo derivado dela. Pouco tempo depois, em outro estranho momento, pedi meu desligamento do cargo.
Naquele dia, descobri o que significa pertencer ao grupo invisível das bulas de remédio. Dos que compõem aquela frase que quase ninguém lê: "menos de 1% dos pacientes relataram...". Eu era aquele menos de 1%. E posso assegurar: há poucas experiências tão solitárias quanto perceber que você se tornou uma estatística improvável.
Algumas horas depois, naquele mesmo dia, meu organismo voltou lentamente, a obedecer às leis da normalidade e, também naquele mesmo dia, vieram outras tantas violências. Comentários, julgamentos, sentenças pronunciadas por pessoas que jamais haviam passado uma noite encarando o próprio abismo. Receio que não durariam um minuto diante de tal precipício. Para esse tipo de ignorância não existe CID, não existe protocolo clínico, não existe medicação. Basta um cargo de chefia e a absoluta incapacidade de compreender aquilo que não se vê para se cometer tal injúria. Mas não é sobre isso que quero falar.
É sobre esse 1%.
De repente, falar sobre depressão, ansiedade, transtornos de personalidade e tantos outros sofrimentos psíquicos tornou-se quase um hábito cotidiano. À primeira vista, parece que a sociedade finalmente aprendeu a olhar para a dor invisível do outro; uma sociedade que compreendeu a exaustão de quem acorda todos os dias carregando um peso que não possui nome, uma angústia que aperta o peito sem deixar marcas, o vazio que consome sem produzir uma única gota de sangue. Poderia ser, mas creio não ter sido esse o caminho que tomamos enquanto coletividade. O que aconteceu foi algo muito mais perverso. Descobrimos que os diagnósticos também podem virar linguagem. Podem virar identidade. Podem virar escudo. Podem explicar tudo e, às vezes, justificar qualquer coisa. E, assim, voltamos à estaca zero: ao pensamento de que se trata de uma fuga dos fracos, ou daqueles que, de alguma maneira, querem, desejam, ser parte de um grupo, ainda que de um grupo doente.
Vivemos uma época em que os laudos circulam com uma facilidade assustadora, enquanto o sofrimento real continua profundamente incompreendido. Todos parecem ter algum transtorno. Todos são ansiosos. Todos são borderline. Todos possuem alguma síndrome, algum espectro, alguma condição que de forma mais científica explique suas dores e seus fracassos. E, no entanto, se tudo isso fosse apenas a nova normalidade da existência humana, uma normalidade pautada por protocolos clínicos, por que ainda precisamos de um “Setembro Amarelo”? Por que ainda precisamos pintar monumentos, distribuir laços e repetir, todos os anos, que a depressão mata?
Porque ela mata. Ela continua matando.
E mata em silêncio.
Mata enquanto a pessoa continua sorrindo nas fotografias. Mata enquanto trabalha. Mata enquanto ensina. Mata enquanto cria filhos. Mata enquanto responde "está tudo bem". Mata muito antes de matar o corpo. Primeiro destrói a esperança. Depois corrói a identidade. E de repente, não sobra mais nada. Sim, sabemos que ainda se sobra muito, mas para quem está em sofrimento, que já é um estado de “ser nada”, o pior que parece poder acontecer e adentrar em um nada diferente, um que pelo menos não incomode ninguém.
Não escrevo isso para deslegitimar a dor cotidiana de todos nós. Todos têm direito às suas angústias. Vivemos, afinal, numa sociedade que se especializou em fabricar ansiedade, solidão e esgotamento. Mas também não posso fingir que toda dor possui a mesma profundidade. Há uma diferença brutal entre sofrer e adoecer. Entre atravessar um período difícil e ver a própria mente transformar-se em um território hostil. Entre sentir tristeza e assistir, impotente, ao desaparecimento gradual de si mesmo.
Talvez a maior tragédia do nosso tempo seja justamente essa: banalizamos tanto a linguagem da doença que começamos a perder a capacidade de reconhecer aqueles que realmente estão a um passo da morte certa. E quando tudo passa a ser depressão... Nada mais parece ser.
Talvez seja justamente por isso que continuamos enterrando pessoas que, dias antes, ouviram de alguém que precisavam apenas "reagir", "ter mais fé", "ocupar a cabeça" ou " vá a um samba, pare de pensar besteira". Talvez seja justamente por isso que ainda exista um “setembro amarelo”. Não para lembrar que todos sofrem. Isso seria mais inútil do que gritar a alguém depressivo que ele é instável. Todos sofrem.
Ter um mês inteiro para se refletir sobre tal desgraça é o alerta, talvez o único que nos resta, de que existe um outro ao nosso lado, que merece atenção, um ombro amigo ou um silêncio calmante, que cale as vozes de pensamentos que nos espreitam a rugir, como leões prestes a nos devorar. Ao mês de setembro, o qual acendemos o sinal de alerta, devemos refletir e nos lembrarmos de que por vezes o cansaço não é só cansaço, de que o desânimo não é apenas desânimo. É para lembrarmo-nos de que, tal qual uma gripe mal curada leva a complicações graves e eventualmente à morte, um dia cinzento, quando repetido dias e dias, pode se tornar uma escuridão sem fim.
E, por isso, 1% ainda é muita coisa.



