Dentro da gaveta
Autor:
Felipe Marton
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Data:
Jan 16, 2025

Ao meu lado está a gaveta. Que em si possui o dom de colorir meus dias, de adormecer as dores, de me fazer viver um sonho. Ao acordar procuro a gaveta. Abro. Uma centena de pequenas cartelas prateadas me esperam, são várias as possibilidades. Pego uma delas, seleciono alguns de seus itens, não sei quantos, não faz diferença. As outras gavetas são menos importantes. Roupas, sapatos. Maquiagens para o cinza indiferente da minha rotina. Não sinto fome, estou em paz eu acho. Saio de casa. O ônibus está lotado, não me importo. Vejo tudo como em uma cena de um filme, cada brilho, reflexo de um sol encoberto por fuligem, parece tudo tão lindo. As horas passam estou agora num trem, está lotado também. Mas consigo me sentar. Senta-se uma senhora muito gorda ao meu lado que me espreme junto à janela. Começo a sentir que a paz está indo embora. Mas sei que em meu bolso há um pouco daquela gaveta. Me contorço para alcançar meu bolso, tem também uma pratinha lá. Pego dois pequenos comprimidos brancos. Com minha garrafa d’água, bebo e os ponho para dentro. A vida volta a ter cores.
Chego no lugar em que empresto momentos da minha existência em troca de algumas poucas moedas, o suficiente para manter a gaveta cheia. Vou direto para minha baia. Quando penso em sua pequenez sufocante, me permito acessar a gaveta que agora se faz em meu bolso. Já perdi a conta de quantas vezes a acessei hoje. Coloco essa espece de cabresto em minha cabeça. Um tubo leva minha voz aos humanos em fúria que caem em meu ouvido. Respondo tal qual uma máquina, sem sentimentos, sem represália, como se deixasse de ser humano por alguns instantes. Estou inebriado, um pouco letárgico. Me perco nas horas, me esqueço das conversas que tenho com os demais acorrentados ao meu lado. Continuo pensando em meus sonhos, em projetos que nunca iniciei, mas que se parecem tão meus. A tela à minha frente me avisa, é hora de ir embora. O tempo passou, eu passei, não percebi. Morreram em mim aqueles instantes. Paguei com morte o crédito que me permite morrer mais um pouco amanhã.
Antes de sair do grande haras humano em que trabalhei por seis horas e vinte minutos, coloco a mão no bolso novamente. Resta apenas um. O tomo mesmo assim. É hora de viajar novamente para casa. Mas, novamente, o tempo em mim havia parado, ainda que se movesse rapidamente e debitasse cada segundo de minha sentença inevitável. Sonho com um carro, um trabalho numa sala ampla, confortável, em minha área na qual me formei. Psicologia. Pensava ser bom nisso, mas o diploma era o mesmo que nada. Adormeço no trem.
Acordo de supetão com o barulho do freio, é hora de ir para o ônibus. Mais uma hora estarei em casa, com minha gaveta. Sinto-me indiferente no ônibus, procuro em meu bolso a resposta para a dor da invisibilidade, mas já não há mais nada naquele pequeno porta-joias de prata que carrega as cores de minha vida. Chego em casa. Vou direto para o banho, o banho também me dá cor. Não sinto fome. Me deito e ligo a tv. Estou angustiado. Tenho que tomar meus indutores da noite, que me fazem parar de sonhar e me entregar ao nada absoluto da mente vazia num oceano de afetos em maremoto. Pego esses venenos na esperança de pegar também aquela porção que se assemelha a um punhado de farinha compensada que me faz esquecer quem eu sou, quem eu era, apenas me permite pensar no que gostaria de ser, ainda que saiba que nunca o serei.
Abro a gaveta e um súbito mal me invade. Não há mais nenhum desses silenciadores de vida. Procuro por receitas, mas não encontro nenhuma. Tomei muito mais do que me foi prescrito, agora sem eles meu coração dispara, sinto uma vertigem forte. Uma náusea inexplicável me envolve. Não há mundo sob meus pés, tudo flutua, me esqueci de como encontrar o chão. Vivi nas nuvens embriagado por muito tempo. Começo a suar.
Volto para a cama, pergunto aos colegas se alguém conseguiria alguns para mim, mas ninguém responde. Uma dor transpassa meu corpo, como se uma estaca atravessasse toda minha coluna. Me deito encolhido e choro. Quero que isso acabe. Quero acabar com isso. Penso que devo acabar com isso. A gaveta está vazia. A realidade me choca. A dor me espanta. Onde estaria eu enquanto tanta dor estava em mim? Pego uma pequena tesoura, faço pequenos cortes em meu braço para tentar aplacar as outras dores. Vou até o banheiro e vomito. Me olho no espelho, magro, sangrando, doente. Não sei a quem recorrer. Quando percebo a luz do dia começa a aparecer sob as frestas da janela.
Me levanto e ando em voltas pelo pequeno apartamento. Não há comida, a água acabou. Perdi o controle da minha vida há muito tempo sem nem perceber. Abro a gaveta com raiva, jogo-a para fora do móvel, reviro meu quarto em busca de um qualquer tipo de anestésico. Procuro por meu telefone, ligo para o posto médico onde minha psiquiatra me atende, eles não podem antecipar a consulta nem me prescrever nenhum remédio. Me deito novamente e durmo. Os sonhos são vívidos, mais claros do que meus olhos têm enxergado a vida. Acordo. Não sei agora o que é realidade e sonho. Ambos se fundiram em cores tão fortes que já não sei distinguir o que está me acontecendo.
Ninguém ligou dando falta da minha presença no trabalho, meus pais estão em sua casa crendo estar tudo bem. Me levanto da cama e uma tontura muito forte toma conta de mim. Tento reestabelecer o equilíbrio, pego minhas chaves e saio de casa. Saio e logo no térreo me encontro com uma grande avenida, repleta de carros e pessoas. Pessoas que se escondem nas sombras de um mundo corrompido pela indiferença. Ando entre elas em busca de lugar nenhum. Somente ando. Sigo a avenida até chegar numa praça, me sento. Observo a vida ao meu redor. Eu nunca a possui. Não a possuo e não sei ao certo se irei possuir. Sinto que há mais passado em meu presente do que futuro em meu amanhã. A tontura começa a ficar mais forte, minha vista está embaçada.
Vejo do outro lado da praça uma farmácia. Me levanto e vou em sua direção, como um cão faminto em busca de alimento. Os carros movimentam as ruas. Mesmo assim inicio minha travessia em busca de uma gaveta repleta de medicamentos na iludida esperança de que irão me ajudar. Paro e olho para o lado e vejo uma multidão de olhares assustados em minha direção, sinto um choque tremendo que me joga para a calçada da frente da farmácia. Um ônibus, o mesmo que sempre peguei me atinge sem piedade. Me sinto quebrado, mas a dor passou. A vertigem desapareceu e a gaveta ficou para trás. Estou em meu sonho novamente. Talvez ao ser tirada a força, eu recupere o ânimo para reconquistar a vida. Mas pode ser apenas um sonho, até a gaveta se encher novamente.




