Crônicas de uma palavra
Autor:
Felipe Marton
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Data:
Jan 16, 2025

Tornar-se adulto, esse desejo tão infantil, não requer que o tempo passe e leve de nós a aparência de menino. Para tornar-se adulto, basta aceitar o tempo, nada mais.
O tempo, esse artesão silencioso, fará seu trabalho independentemente da nossa vontade. O que realmente nos transforma não são os anos acumulados, mas aquilo que eles levam consigo. É a percepção daquilo que deixou de existir. É o inventário das ausências em que se conclui que algo mudou. Mudou drasticamente.
Crescer é exatamente isso: aprender que a vida não nos acrescenta pessoas, lugares e histórias a todo instante. Ela também subtrai. Na verdade, ela mais subtrai do que acrescenta. Porque, quando subtrai, não leva de nós um pequeno adereço que, como ornamento, poderia ser deslocado sem alterar a arquitetura da alma. Ela arranca o cômodo inteiro. E nesse movimento há perdas que não se compensam com absolutamente nada, porque ocupavam um espaço que ninguém mais saberá habitar.
Acredito que nos tornamos adultos no exato instante em que descobrimos nossa incompletude. Quando percebemos que existe, dentro de nós, um cômodo destinado apenas ao que realmente importa. Um lugar de onde nada deveria partir. Ali repousam vozes, cheiros, gargalhadas, domingos inteiros, mãos que seguraram as nossas quando ainda éramos pequenos. Um cômodo construído de lembranças, sem nenhum véu a recobri-las. Um espaço onde passamos tempo demais até percebermos que algo nele mudou.
Passamos boa parte da vida tentando mobiliá-lo. Enfeitamo-lo com afetos, fotografias invisíveis carregadas de memória, a ponto de tocar os momentos nelas registradas. E nesse cômodo há as promessas de permanência. Já nascemos com isso, com esse desejo de que exista algo imutável. Por muito tempo passamos pensando ser impossível qualquer mudança. A ingenuidade
da infância nos convence de que suas portas jamais serão abertas por alguém disposto a esvaziá-lo.
Mas o tempo possui a estranha mania de entrar sem bater.
Vai retirando uma cadeira aqui, uma fotografia ali. Um perfume desaparece. Uma risada deixa de ecoar. Uma mesa passa a comportar menos pratos.
Esse lugar metafísico permanece intacto apenas para que a ausência faça dele seu endereço.
E quando menos percebemos, o cômodo continua sendo o mesmo. Continua no mesmo lugar. Apenas maior e mais silencioso.
Pessoalmente, acredito que me tornei adulto cedo demais.
Mas o fogo forjou-me incompleto.
As chamas vivas da existência ensinaram-me, ainda menino, que algumas pessoas simplesmente atravessam a porta desse agora “incômodo cômodo” e nunca mais regressam. Desde então, passei a desconfiar da palavra "sempre".
Descobri que até as promessas mais sinceras podem ser interrompidas pelo acaso, que talvez não seja outra coisa senão o próprio tempo satirizando nosso desejo de eternidade. Até hoje acredito sermos destinados a ela.
Descobri que existem despedidas sem aviso e silêncios que sobrevivem por décadas — por nossas décadas, que parecem ser uma vida inteira —, até o dia em que nós mesmos nos tornaremos a ausência que alguém aprenderá a suportar.
Mas, curiosamente, todo esse vazio que eu muito bem sabia descrever, ainda não tinha nome.
Eu conhecia a perda. Conhecia essa tal ausência. Conhecia o espanto de procurar alguém onde ela já não podia estar. Sabia o peso de uma cadeira vazia à mesa e de um aniversário em que faltava uma voz. Contudo, ainda não compreendia que existe uma dor mais delicada do que a morte, justamente porque ela não encerra coisa alguma – de novo, a pitada de eternidade que há em mim me faz crer nisso. A morte possui a crueldade do ponto final no aqui, no agora; a distância, ao contrário, condena-nos às reticências, no talvez, no quem sabe...
Há ausências que continuam respirando em algum lugar do mundo.
Elas acordam, sorriem, atravessam ruas, observam o mesmo céu sob outro horizonte. Continuam vivendo sem saber que, dentro de nós, um cômodo inteiro permanece aceso à espera de um retorno que talvez nunca aconteça – pelo menos a mim nunca aconteceu. E é justamente essa permanência da vida que torna a ausência tão insuportavelmente humana. Não sofremos porque o outro deixou de existir. Sofremos porque ele continua existindo sem participar da paisagem cotidiana dos nossos dias. Ah como eu daria tudo para contemplar essa paisagem com alguns dos meus eternos.
Durante muito tempo não compreendi esse fenômeno estranho.
Imaginava que a dor obedecesse apenas às grandes tragédias, aos acontecimentos extraordinários, aos rompimentos definitivos. Não percebia que a existência possui maneiras muito mais discretas de nos ferir. Há perdas que não fazem barulho. Não quebram nada. Não exigem luto.
Apenas deslocam o eixo do mundo alguns centímetros para o lado, e passamos anos tropeçando nessa imperceptível mudança de lugar.
É curioso como a alma cria seus próprios mapas.
Não mede distâncias em quilômetros, mas em presenças. Dois corpos podem estar separados por continentes e ainda permanecerem vizinhos dentro de nós. O coração desconhece a geografia; orienta-se pela intensidade.
Foi somente muito tempo depois que percebi que certas lembranças possuem temperatura.
Algumas são frias como corredores de hospitais. Outras têm o cheiro da terra molhada depois da chuva. Há aquelas que chegam acompanhadas pelo perfume de uma casa antiga, pelo aroma de um lenço de quem já passou..., pelo som distante de uma música esquecida ou pela luz específica de um fim de tarde.
E existem as lembranças que chegam em forma de calor.
Um calor inexplicável.
Daqueles que parecem atravessar a pele antes mesmo de tocarem o corpo. Um mormaço que não pertence apenas ao verão, mas à memória. Como se o próprio ar fosse capaz de transportar pessoas invisíveis e devolvê-las, por alguns instantes – sim, esses intervalos minúsculos em que somos felizes –, ao cômodo que julgávamos definitivamente vazio.
Foi nesse calor que, sem perceber, encontrei a palavra que faltava.
Até então eu conhecia a ausência.
Já nesse dia, descobri a saudade.




