A última petunia
Autor:
Felipe Marton
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Data:
Jan 16, 2025

O sol moribundo pingava uma luz laranja doente sobre a cidade cinzenta. Não houve explosões, nem asteroides, nem fogo. O fim veio como um murmúrio, um cansaço que se espalhava pelo mundo como uma névoa. As pessoas pararam de se importar. Pequenas gentilezas desapareceram, seguidas por grandes ambições, depois por necessidades básicas.
Numa das poucas varandas onde ainda havia flores, uma mulher regava petúnias de um roxo profundo. Seu nome era Elara. Ela se lembrava do mundo antes, de risadas que ecoavam em parques, de crianças que perseguiam bolas e de discussões apaixonadas sobre arte e política. Agora, havia apenas o silêncio. Um silêncio denso e opressor que fazia o som da água caindo nas folhas parecer um trovão.
Seu vizinho, o velho Sr. Altair, sentava-se na varanda ao lado, com as mãos no colo. Ele era relojoeiro, e suas mãos, outrora ágeis, agora estavam paradas. Ele se lembrava de quando cada tic-tac do seu relógio era uma promessa de tempo, um futuro que se desenrolava. Agora, os relógios paravam um por um. O tempo não tinha mais propósito.
Elara se inclinou sobre a grade, o olhar perdido na rua vazia. "Você acha que é assim que acaba?" Ela perguntou, sua voz era um fio tênue. Altair balançou a cabeça devagar. "Não é um final, Elara. É uma dissolução. Como açúcar na água. Um dia está lá, no outro, se foi." Ele olhou para as flores dela. "Por que você ainda as rega?"
Elara sorriu, um sorriso triste que não alcançava seus olhos. "Porque elas ainda são bonitas. E se eu não regar, quem vai?" O vento fraco balançou as folhas secas que se acumulavam nas calçadas. Um gato magro atravessou a rua, sem pressa. Não havia mais cachorros latindo, nem sirenes de ambulâncias, nem buzinas de carros. A cidade estava se transformando em uma ruína silenciosa. Os prédios altos, antes cheios de vida, agora eram apenas esqueletos de concreto e vidro, esperando desabar. Todos tinham ido embora.
Altair olhou para o céu. O sol estava mais baixo, sua luz quase vermelha. "E se não houver ninguém para ver a beleza?" Ele perguntou. Elara voltou a regar suas petúnias, a água cintilando sob a luz moribunda. "Então não haverá ninguém para ver a feiura também."
Naquela noite, a luz do sol se foi. Não foi substituída pela lua ou pelas estrelas. O céu ficou preto. A escuridão era fria e absoluta. As petúnias de Elara, as mãos de Altair, as paredes cinzentas da cidade, tudo se dissolveu na escuridão. Não houve gritos. Não houve lágrimas. Apenas um sussurro, um suspiro final. O fim do mundo não foi um espetáculo. Foi apenas um silêncio muito, muito longo.
Final alternativo:
A solidão tornou-se a única presença. O céu se uniu à terra e se fez um só. Luz e trevas, agora unidos, revestiam-se com as cores das petúnias de Elara. O tempo havia se curvado às mãos de Altair. O mundo que, feito para os homens, encerrou-se também por suas mãos. Mãos que outrora a tudo destruíram agora davam sentido ao fim do mundo.
Cor e tempo, assim tornamo-nos eternos. Era o Universo nos dando outra chance. O encerrar-se da história, diferente de tudo o que sempre nos contaram, foi repleto de sentido. Ainda que um só enxergasse a beleza, haveria a chance de encerrarmos nossa passagem, breve passagem, pela estranha existência de ser com a dignidade de seres que, em suas mãos sempre tiveram o mundo.




